MOC - Tecnologia e Cultura Digital

A tecnologia não é neutra. A nuvem não é uma nuvem. E o desejo de nos dissolvermos nela é talvez a forma mais eficaz de consentimento que alguma vez inventámos.

Este mapa organiza-se em torno de uma tensão central:

promessa da nuvem             condição real
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libertação                    reprodução de hierarquias
transcendência                escravidão ao duplo digital
imortalidade                  permanência do dado, não do significado
dissolução do ego             entrega dos dados
revolução                     conveniência

Fonte central: Lanfranco Aceti, Wet Me: Cupio Dissolvi ad Nubes et Lumina (2017).


A divisão do humano contemporâneo

Quem somos quando existimos em dois lugares ao mesmo tempo?

Tensão central: a nuvem prometeu ser uma saída para o binarismo. Aceti mostra que o replicou com mais eficiência.


O arquivo como instrumento de poder

Quem guarda o arquivo guarda o sujeito.

Tensão central: o arquivo digital deveria ser o maior amplificador da memória irreprimível. Em vez disso, é o maior instrumento de redefinição do sujeito por terceiros.


O desejo como vetor de exploração

O que queremos quando queremos desaparecer?

Tensão central: o cupio dissolvi não é patologia individual - é a estrutura afetiva que torna a exploração digital possível e desejada.


A nuvem como não-revolução

O que fica quando a promessa de libertação tecnológica se cumpre?

Argumento em construção: a relação entre a história da Internet, o nascimento da nuvem e o capitalismo de vigilância; a impossibilidade estrutural de um sistema dependente de infraestrutura militar e corporativa ser genuinamente anti-hierárquico.


Caminhos de leitura

Começar pela divisão:
o humano-nublado e o humano-ancoradoo arquivo como condição de existênciaa nuvem como arquivo psicótico

Começar pelo desejo:
cupio dissolvio cubo de açúcar como pharmakona nuvem não é revolucionária - reproduz hierarquias

Começar pela ontologia:
supraposicionismosupraposicionismo e campos de sentidoo arquivo digital e o irreprimível de Derrida

Percurso completo:
o humano-nublado e o humano-ancoradocupio dissolvio cubo de açúcar como pharmakona nuvem como arquivo psicóticoo arquivo digital e o irreprimível de Derridasupraposicionismosupraposicionismo e campos de sentidoa nuvem não é revolucionária - reproduz hierarquias


Pontes com outros territórios


Perguntas em aberto

  1. O preço real da nuvem - os custos financeiros, temporais e laborais da existência digital são distribuídos de forma equitativa? Quem paga pela manutenção do humano-nublado de quem?

  2. Identidade como dado - quando o humano-nublado é redefinido pela interpretação corporativa de uma parte do arquivo, que consequências tem para o humano-ancorado? O que significa ter a identidade curada por outros?

  3. O irreprimível em perigo - se o arquivo digital pode ser afogado no trivial por algoritmos de relevância, o que acontece à memória coletiva perturbadora? Quem tem o poder de decidir o que persiste?

  4. A censura como estética do corpo - a censura algorítmica seletiva (mamilos proibidos, violência permitida) não é apenas política: é uma posição estética sobre quais corpos e atos são aceitáveis. Que corpo pressupõe a nuvem?

  5. Supraposicionismo ou servidão? - a condição de existir em dois estados simultâneos é uma saída real para o binarismo, ou é apenas uma forma mais sofisticada de dividir o sujeito para o explorar melhor?


Notas por criar


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