MOC - Tecnologia e Cultura Digital
A tecnologia não é neutra. A nuvem não é uma nuvem. E o desejo de nos dissolvermos nela é talvez a forma mais eficaz de consentimento que alguma vez inventámos.
Este mapa organiza-se em torno de uma tensão central:
promessa da nuvem condição real
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libertação reprodução de hierarquias
transcendência escravidão ao duplo digital
imortalidade permanência do dado, não do significado
dissolução do ego entrega dos dados
revolução conveniência
Fonte central: Lanfranco Aceti, Wet Me: Cupio Dissolvi ad Nubes et Lumina (2017).
A divisão do humano contemporâneo
Quem somos quando existimos em dois lugares ao mesmo tempo?
- o humano-nublado e o humano-ancorado (átomo) - o corpo físico que trabalha e morre; a identidade digital que persiste e é explorada; o ancorado escravizado à manutenção do nublado
- supraposicionismo (átomo) - a condição emergente de existir em dois estados simultâneos: material e imaterial, presente e arquivado, vivo e morto
- supraposicionismo e campos de sentido (molécula) - Aceti + Gabriel: o humano-nublado não transcende o ancorado - é o mesmo ser numa aparição distinta, num campo com as suas próprias regras e os seus próprios poderes
Tensão central: a nuvem prometeu ser uma saída para o binarismo. Aceti mostra que o replicou com mais eficiência.
O arquivo como instrumento de poder
Quem guarda o arquivo guarda o sujeito.
- o arquivo como condição de existência (molécula) - Foucault + Aceti + Derrida: a nuvem como condição ontológica ou existência condicionada? a ambiguidade só emerge da combinação dos três
- a nuvem como arquivo psicótico (átomo) - estruturado mas irracional, pessoal mas controlado; a nuvem como corporação com comportamentos psicopáticos que redefine indivíduos segundo critérios sádicos
- o arquivo digital e o irreprimível de Derrida (molécula) - Aceti + Derrida: a nuvem amplifica e suprime simultaneamente o arquivo irreprimível; o que persiste é o dado, não o significado
Tensão central: o arquivo digital deveria ser o maior amplificador da memória irreprimível. Em vez disso, é o maior instrumento de redefinição do sujeito por terceiros.
O desejo como vetor de exploração
O que queremos quando queremos desaparecer?
- cupio dissolvi (molécula) - tradição mística/latina + crítica digital de Aceti: o desejo de dissolução como estrutura afetiva de consentimento à exploração
- o cubo de açúcar como pharmakon (molécula) - Tofts + Derrida/Platão: a dissolução como remédio e veneno; o que prometemos quando queremos desaparecer na nuvem é também a entrega do controlo sobre a nossa forma
Tensão central: o cupio dissolvi não é patologia individual - é a estrutura afetiva que torna a exploração digital possível e desejada.
A nuvem como não-revolução
O que fica quando a promessa de libertação tecnológica se cumpre?
- a nuvem não é revolucionária - reproduz hierarquias (composto) - a Internet prometeu liberdade; a nuvem prometeu conveniência; nenhuma das duas rompeu com as estruturas de poder - limitaram-se a fornecer instrumentos mais eficientes de vigilância e exploração
Argumento em construção: a relação entre a história da Internet, o nascimento da nuvem e o capitalismo de vigilância; a impossibilidade estrutural de um sistema dependente de infraestrutura militar e corporativa ser genuinamente anti-hierárquico.
Caminhos de leitura
Começar pela divisão:
o humano-nublado e o humano-ancorado → o arquivo como condição de existência → a nuvem como arquivo psicótico
Começar pelo desejo:
cupio dissolvi → o cubo de açúcar como pharmakon → a nuvem não é revolucionária - reproduz hierarquias
Começar pela ontologia:
supraposicionismo → supraposicionismo e campos de sentido → o arquivo digital e o irreprimível de Derrida
Percurso completo:
o humano-nublado e o humano-ancorado → cupio dissolvi → o cubo de açúcar como pharmakon → a nuvem como arquivo psicótico → o arquivo digital e o irreprimível de Derrida → supraposicionismo → supraposicionismo e campos de sentido → a nuvem não é revolucionária - reproduz hierarquias
Pontes com outros territórios
- supraposicionismo e campos de sentido liga diretamente ao MOC - Epistemologia e Método - o humano-nublado como aparição num campo de sentido (Gabriel)
- o arquivo como condição de existência ressoa com externalização do pensamento (Ahrens) - o arquivo como extensão cognitiva, mas aqui com consequências políticas
- a nuvem não é revolucionária - reproduz hierarquias liga ao território de Biologia - a nuvem como sistema que promete o rizoma mas reproduz a árvore
Perguntas em aberto
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O preço real da nuvem - os custos financeiros, temporais e laborais da existência digital são distribuídos de forma equitativa? Quem paga pela manutenção do humano-nublado de quem?
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Identidade como dado - quando o humano-nublado é redefinido pela interpretação corporativa de uma parte do arquivo, que consequências tem para o humano-ancorado? O que significa ter a identidade curada por outros?
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O irreprimível em perigo - se o arquivo digital pode ser afogado no trivial por algoritmos de relevância, o que acontece à memória coletiva perturbadora? Quem tem o poder de decidir o que persiste?
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A censura como estética do corpo - a censura algorítmica seletiva (mamilos proibidos, violência permitida) não é apenas política: é uma posição estética sobre quais corpos e atos são aceitáveis. Que corpo pressupõe a nuvem?
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Supraposicionismo ou servidão? - a condição de existir em dois estados simultâneos é uma saída real para o binarismo, ou é apenas uma forma mais sofisticada de dividir o sujeito para o explorar melhor?
Notas por criar
- Lanfranco Aceti - entrada própria sobre o autor
- Vigilância algorítmica - dos programas PRISM/NSA às plataformas; o controlo como infraestrutura
- A corporação como pessoa - Joel Bakan e a psicopatia corporativa
- Paul Virilio - dromocracia e velocidade como instrumento de poder
- Capitalismo de vigilância - Shoshana Zuboff; a extração de dados comportamentais como novo modelo económico