A adição como metáfora civilizacional em Infinite Jest

Uma das linhas críticas mais férteis em Infinite Jest orbita em torno do tema da adição. Esta leitura, partilhada por comentadores tão diversos como Marshall Boswell em Understanding David Foster Wallace (2003), Stephen J. Burn em David Foster Wallace's Infinite Jest: A Reader's Guide (2012) e D. T. Max em Every Love Story is a Ghost Story (2012), interpreta o romance como uma vasta meditação sobre as estruturas do desejo na sociedade tardo-capitalista - para além da sua dimensão estritamente farmacológica.

A arquitetura dual do romance

A composição do romance é ela mesma reveladora desta tese. Os dois núcleos espaciais centrais - a Enfield Tennis Academy, onde se forma o ténis prodígio Hal Incandenza, e a Ennet House Drug and Alcohol Recovery House, onde se recupera Don Gately - coexistem em proximidade geográfica e em correspondência estrutural. O paralelismo não é fortuito: ambos os espaços documentam, cada um à sua maneira, a economia da compulsão. O atleta de alto rendimento e o toxicodependente partilham, na visão wallaceana, uma mesma estrutura de subjetividade reorganizada em torno de um objeto totalizante.

Adição em sentido alargado

O alcance da metáfora é amplo. Em Infinite Jest, viciam-se substâncias químicas, certamente - mas também o entretenimento (paradigma das adições, encarnado no cartucho fílmico letal, o desempenho desportivo, a beleza física (no caso da personagem Joelle van Dyne), a conjugalidade obsessiva (em Orin Incandenza), a ansiedade gramatical e mesmo a ironia pós-moderna enquanto disposição existencial. Wallace parece sugerir que a adição não é exceção patológica num continuum saudável, mas figura paradigmática do desejo na modernidade tardia.

A sabedoria dos Alcoólicos Anónimos

Um dos gestos mais notáveis do romance é a apresentação séria, e mesmo reverente, das práticas e linguagem dos Alcoólicos Anónimos. As secções da Ennet House documentam clichês do programa de doze passos - One Day at a Time, Fake It Till You Make It, Hand It Over - sem o filtro irónico que seria expectável num escritor formado na tradição metaficcional. Don Gately, personagem rude, tatuada, com passado de violência, torna-se, contra todas as expectativas, uma das figuras éticas mais densas da ficção wallaceana - porventura a mais íntegra. Esta dignificação de saberes desprezados pela cultura letrada é coerente com a proposta da nova sinceridade formulada em E Unibus Pluram.

Adição e anedonia

A leitura desta dimensão cruza-se produtivamente com o conceito de anedonia - incapacidade de sentir prazer - que percorre a obra wallaceana e culmina no romance póstumo The Pale King. A adição surge, neste enquadramento, não como busca de prazer mas como tentativa desesperada de resgatá-lo num quadro afetivo onde já não está disponível: a substância, o ecrã, o ténis, prometem uma intensidade que a vida quotidiana deixou de oferecer. É também esta a razão pela qual a adição e depressão se entrelaçam tão intimamente na obra do autor.