a imaginação como gerador de campos de sentido
Para Markus Gabriel, existir é aparecer num campo de sentido. O número 7 existe no campo dos números naturais. O Sherlock Holmes existe no campo dos romances de Conan Doyle. A tristeza existe no campo dos estados psicológicos.
Mas o que acontece quando imagino o número 7 como personagem de uma história? Ou como símbolo de azar? Ou como o nome de um deus? Estou a criar novos campos de sentido para o mesmo objeto - ou estou a colocar o número 7 em campos já existentes (o da ficção, o da superstição, o da mitologia)?
A pergunta desdobra-se em duas:
1. A imaginação gera campos genuínos ou apenas instancia campos já existentes?
A resposta fácil: a imaginação não cria campos ex nihilo. Quando imagino o 7 como personagem, estou a colocá-lo no campo da ficção narrativa - que já existe antes de eu imaginar qualquer coisa. A imaginação seria então uma faculdade de inserção em campos pré-existentes, não de criação de campos novos.
Mas há uma versão mais perturbadora: cada ato de imaginação cria um campo singular, irrepetível - o campo desta imaginação concreta, neste momento, por este sujeito. O campo "o 7 como deus na minha fantasia das 14h34 de hoje" é ontologicamente distinto do campo "o 7 como personagem no romance de outra pessoa". Se Gabriel está certo que campos são individuados pelas suas condições de aparecimento, então cada imaginação seria literalmente um campo novo.
2. Há limites para o número de campos que a imaginação pode gerar?
Do ponto de vista gabrieliano, não há meta-campo que contenha todos os campos possíveis. Não há razão estrutural para que a imaginação encontre um limite. O que há são campos mais ou menos robustos - mais ou menos partilhados, mais ou menos férteis para o pensamento.
Um campo que só existe na minha imaginação é um campo frágil: depende da minha atenção para persistir, não tem interlocutores, não gera surpresas. Um campo partilhado - como o da matemática ou o da ficção - tem uma espessura que a imaginação singular não consegue replicar.
A tensão que fica:
A ontologia de Gabriel parece pressupor que os campos têm algum grau de independência em relação a qualquer mente singular - caso contrário, o idealismo estaria de volta pela porta das traseiras. Mas se a imaginação pode gerar campos genuínos, a distinção entre "campo real" e "campo imaginado" torna-se instável.
Esta tensão não é um problema a resolver. É uma das questões produtivas que a Sinnfeldontologie deixa em aberto - e que o jardim digital, enquanto dispositivo que cria campos de sentido para notas, habita diariamente sem o saber.
Cf. campos de sentido · um pensamento pode existir em vários campos de sentido? · os campos de sentido gabrielianos são categorias ou tags? · proliferação de tags · O mundo não existe