o fungo como modelo epistemológico para as ciências sociais
A micologia de Sheldrake não é apenas biologia. É um conjunto de desafios epistemológicos à forma como as ciências sociais pensam os seus objetos. Cada fenómeno fúngico que o livro descreve é também uma crítica implícita a uma premissa das ciências humanas.
O problema do indivíduo
As ciências sociais herdaram da filosofia liberal e da economia clássica o pressuposto do indivíduo como unidade básica de análise. O ator racional, o sujeito de direitos, o consumidor que maximiza a utilidade: todos pressupõem uma unidade delimitada com fronteiras claras, preferências estáveis e agência autónoma.
O líquen é um contra-exemplo biológico a este pressuposto. Se uma forma de vida bem-sucedida é fundamentalmente uma negociação contínua entre parceiros, e se o "organismo" que resulta é mais bem descrito como processo de relação do que como unidade, então o modelo do indivíduo delimitado é empiricamente contestado - não apenas filosoficamente.
O que seria uma ciência social que partisse da relação em vez de partir do indivíduo? Não a versão fraca, em que os indivíduos "interagem" ou "são influenciados" por outros, mas a versão forte: sujeitos que são sempre-já constituídos pelas suas relações, antes de nelas entrar.
O problema da cooperação e da competição
A narrativa dominante nas ciências sociais oscila entre dois polos: o modelo do conflito (competição de interesses, luta de classes, poder) e o modelo do consenso (normas partilhadas, solidariedade, bem comum). A rede micorrízica sugere que esta dicotomia é falsa.
Na mesma rede, coexistem mutualismos, parasitismos, explorações e trocas equitativas - sem que nenhum destes modos seja o "verdadeiro" caráter da rede. A cooperação e a competição não são alternativas que se excluem; são dimensões que se entrelaçam no mesmo sistema.
As ciências sociais que insistem em classificar grupos, instituições e estruturas como fundamentalmente cooperativos ou fundamentalmente competitivos estão a impor uma dicotomia que a biologia já abandonou.
O problema da agência
O Cordyceps e o microbioma perturbam o modelo de agência das ciências sociais tanto quanto o modelo filosófico. Se o comportamento humano é sempre co-produzido por organismos que alojamos, estruturas que habitamos e linguagens que nos precedem, então a questão não é "quem decide?" mas "em que configuração de agências emerge esta ação?"
Isto não implica o fim da responsabilidade ou da escolha. Implica que o modelo da agência individual pura - o sujeito que age a partir de si mesmo, transparente para si próprio, causa não causada do seu comportamento - é uma simplificação que as ciências sociais mantêm por conveniência analítica, não por fidelidade ao objeto.
O que falta desenvolver
A tensão entre este modelo relacional/distribuído e as exigências metodológicas das ciências sociais (como operacionalizar a "configuração de agências"? como medir a co-constituição?). A relação com teorias como o Actor-Network Theory de Latour, a sociologia da associação e as teorias da prática.
Cf. o líquen e o indivíduo - a fronteira do self como ficção · a rede micorrízica - cooperação e competição no mesmo sistema · o cordyceps e a agência parasitada · o microbioma como coautoria do comportamento
Fonte central: Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024)