a nuvem como arquivo psicótico
Aceti recusa tanto a visão utópica da nuvem (espaço de liberdade e partilha) como a visão simplesmente técnica (infraestrutura de armazenamento). A nuvem é, para ele, um arquivo psicótico: estruturado mas irracional, organizado mas incoerente, pessoal mas controlado por outros.
Falha como organon (instrumento lógico, no sentido aristotélico): os critérios de organização são pessoais, contraditórios entre si, e não correspondem a uma racionalidade unificada. Falha como corpus: não tem uma unidade pressuposta - é uma coleção caótica de dados contrastantes.
Mais perturbador: a própria nuvem é uma corporação - e as corporações têm comportamentos psicopáticos. Acedem ao arquivo e definem os indivíduos segundo critérios sádicos: a interpretação virtual de uma parte redefine o todo. Uma publicação, uma pesquisa, uma interação tornam-se o indivíduo inteiro.
Aceti cita Bakan: a maioria das pessoas acharia a "personalidade" de uma corporação abominável num ser humano - e no entanto aceitamo-la na instituição mais poderosa da sociedade.
A nuvem não é o espaço neutro de armazenamento que a metáfora meteorológica sugere. É um ator com interesses, critérios e comportamentos próprios - que não são necessariamente os interesses, os critérios ou os comportamentos dos utilizadores cujos dados armazena.
Fontes: Lanfranco Aceti, Wet Me (2017); Joel Bakan, The Corporation (2005)