simpoiese

Donna Haraway, em Staying with the Trouble (2016), propõe substituir o conceito de autopoiese - "auto-fazer", a ideia de que os organismos se produzem a si mesmos - pelo conceito de simpoiese: "fazer-juntos".

A distinção não é cosmética. A autopoiese pressupõe unidades que se definem por si mesmas e que entram posteriormente em relação com outras unidades. A simpoiese pressupõe que o fazer é sempre-já um fazer-com: não há organismo que não seja constituído pelas suas relações antes de as estabelecer.

O líquen e as redes micorrízicas são instanciações biológicas literais da simpoiese. O líquen não é um organismo que se relaciona com algas - é a relação com algas. O micélio não é uma rede que coopera com árvores - é parcialmente constituído por essa cooperação.

A simpoiese implica uma revisão profunda do que conta como unidade de análise nas ciências da vida - e, por extensão, nas ciências sociais. Se os organismos são sempre simpoiéticos, o mesmo será verdade para os grupos, as culturas, as instituições?

Fontes: Donna Haraway, Staying with the Trouble (2016); Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024)