o arquivo digital e o irreprimível de Derrida

Em Archive Fever (1996), Derrida propõe que o arquivo contém o irreprimível: a força da memória transgeracional que resiste à supressão. Por natureza, o arquivo não pode ser totalmente controlado - há sempre um excesso que escapa à curadoria.

Aceti confronta este conceito com a condição do arquivo digital na nuvem - e o resultado é perturbador:

A nuvem devia amplificar o irreprimível - tornando o arquivo mais vasto, mais persistente, mais difícil de apagar. Em certo sentido, fá-lo: o escândalo de Anthony Weiner, os "Santorum Droppings" de Dan Savage, as Google bombs políticas mostram que o arquivo digital pode manter vivos conteúdos que o poder preferia ver suprimidos.

Mas a nuvem também pode suprimir o irreprimível - de formas que Derrida não podia antecipar. O algoritmo que decide o que aparece e o que desaparece, o critério corporativo que define quem existe na nuvem segundo que parâmetros, a velocidade de proliferação de dados que afoga conteúdos perturbadores num fluxo de trivialidades: tudo isto pode tornar o irreprimível superseded, obscurecido, irrelevante.

A tensão: o arquivo digital é simultaneamente o maior amplificador do irreprimível (nada desaparece realmente) e a maior ameaça ao irreprimível (tudo pode ser redefinido, obscurecido, descontextualizado).

O que parece permanente na nuvem - a foto, a publicação, o perfil - é permanente segundo critérios que não são os do sujeito mas os da plataforma. A imortalidade prometida é a imortalidade do dado, não do significado.

Cf. o arquivo como condição de existência · a nuvem como arquivo psicótico

Fontes: Lanfranco Aceti, Wet Me (2017); Jacques Derrida, Archive Fever (1996)