o micélio como rizoma biológico

Em Mil Planaltos (1980), Deleuze e Guattari opõem o rizoma à árvore: onde a árvore é hierárquica, com raiz, tronco e ramificações subordinadas, o rizoma é horizontal, múltiplo, acéfalo, sem ponto de origem ou de chegada. O rizoma propaga-se lateralmente, cria conexões inesperadas, resiste à centralização.

Deleuze e Guattari estavam a pensar em conceitos e em cultura. Sheldrake mostra que estavam também, sem o saber, a descrever o micélio.

O micélio é o rizoma, biologicamente instanciado. Não tem centro. Não tem hierarquia. Cresce lateralmente, ramifica, conecta pontos distantes, decompõe e reconstrói. Responde ao seu ambiente não por comando central mas por adaptação distribuída em cada ponto da rede.

A ressonância não é apenas estética. Deleuze e Guattari propunham o rizoma como modelo de pensamento e de organização social alternativo ao modelo arbóreo do Estado, da ciência positivista e da psicanálise. Sheldrake oferece a prova de que este modelo não é apenas uma metáfora filosófica - é uma forma de organização que a vida descobriu por conta própria, e que funciona.

A questão que fica: o que seria uma ciência social, uma pedagogia, uma política genuinamente rizomática?

Cf. cognição distribuída sem cérebro · zettelkasten e jardim digital

Fontes: Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024); Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Planaltos (1980)