o cordyceps e a agência parasitada
Os fungos Ophiocordyceps infetam formigas e manipulam o seu comportamento com precisão notável: forçam-nas a trepar até uma altura exata, a agarrarem-se com as mandíbulas a uma nervura de folha - e matam-nas depois, frutificando através da cabeça para dispersar esporos.
O que torna o caso filosoficamente perturbador não é o horror - é a indistinguibilidade. O comportamento da formiga parasitada é indistinguível do comportamento voluntariamente executado. A última subida, a mordida precisa, o posicionamento cuidadoso: tudo parece intencional. Porque pareceria - a intenção não é um critério fiável de autoria.
Sheldrake pergunta: se um fungo pode produzir comportamento num corpo animal com a mesma precisão que qualquer impulso "autêntico", o que revela isto sobre a relação entre organismo e comportamento, entre self e o que age através de nós?
A questão não é académica. O comportamento humano é moldado por organismos que alojamos, por estruturas que habitamos, por linguagens que nos precedem. Somos sempre, em alguma medida, o palco sobre o qual múltiplas agências atuam - algumas nossas, muitas não.
Fonte: Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024)