O mundo não existe

"O mundo não existe. Como o leitor verá, isto não significa que nada exista."

A frase é deliberadamente provocatória. Markus Gabriel, filósofo alemão que em 2009, com vinte e nove anos, ocupou a cátedra de Epistemologia da Universidade de Bona - tornando-se o mais jovem catedrático de Filosofia da Alemanha -, sabe exatamente o que está a fazer quando abre o seu livro mais popular com esta afirmação. Não está a negar que existam coisas. Está a negar que exista uma coisa que as contenha a todas.

A distinção é decisiva.


O argumento

Para Gabriel, existir é sempre existir em algum domínio - naquilo a que chama um campo de sentido. O número 7 existe no campo dos números naturais. Sherlock Holmes existe no campo dos romances de Conan Doyle. A minha mão existe no campo do meu corpo, que por sua vez existe no campo da biosfera terrestre. A tristeza existe no campo dos estados psicológicos. Cada campo tem as suas próprias regras de individuação e de verdade. Confundi-los é cometer um erro categorial: tão absurdo como tentar contar quantos átomos pesa a esperança.

O que não existe é o meta-campo - o domínio que conteria absolutamente todos os outros domínios, a totalidade de todas as totalidades, o "mundo" enquanto objeto supremo e abrangente. Para existir, esse meta-campo teria de aparecer nalgum campo de sentido. Mas em que campo apareceria o campo de todos os campos? Ou é ele próprio (circularidade) ou é outro (e então não é a totalidade). O conceito de "mundo" como totalidade absoluta é, conclui Gabriel, ontologicamente incoerente.

A consequência é um pluralismo ontológico radical: a realidade não é una, é plural. Não há um único nível de descrição que capture tudo o que existe. Há infinitos campos de sentido, cada um deles real, cada um deles irredutível aos restantes.


O erro que a filosofia partilhou com a ciência

Gabriel não está a fazer filosofia pela filosofia. Está a diagnosticar um erro que, na sua forma mais benigna, produz confusão; na sua forma mais perigosa, produz dogmatismo.

O erro é sempre o mesmo: eleger um campo de sentido como o campo definitivo, o único que importa, o que explica todos os outros. A física como descrição última da realidade. A neurociência como chave da mente. A economia como gramática profunda da ação humana. A genética como destino. Em cada caso, um campo legítimo - com as suas regras, os seus métodos, as suas descobertas genuínas - transforma-se numa ideologia quando pretende absorver o que lhe é exterior.

A resposta de Gabriel não é o relativismo - não é dizer que todos os campos valem o mesmo ou que não há verdade. É dizer que há verdade em cada campo, e que a verdade de um campo não cancela a verdade dos outros. A neurociência diz coisas verdadeiras sobre o cérebro; isso não significa que a poesia seja neurociência mal feita. A economia diz coisas verdadeiras sobre mercados; isso não significa que a solidariedade seja uma falha de cálculo.


O que isto muda para as ciências sociais

A sociedade - como o mundo - também não existe. Não enquanto objeto unitário, transparente, apreensível por um único ângulo.

Quando um economista analisa uma greve, vê uma perturbação no mercado de trabalho. Quando um sociólogo olha para a mesma greve, vê uma reconfiguração de relações de poder. Quando um psicólogo olha, vê dinâmicas de identidade e de grupo. Quando um romancista olha, vê algo que os três anteriores não conseguem nomear com rigor suficiente. Todos têm razão. Nenhum tem toda a razão. E a greve - a greve real, com os seus corpos, a sua raiva, o seu cansaço - excede-os a todos.

O problema das ciências sociais não é que cada disciplina seja incompleta - é que cada uma tem a tentação de se comportar como se fosse completa. Como se o ângulo fosse a resposta. Como se o mapa fosse o território.

Gabriel oferece uma saída que não é ecletismo nem rendição: a pluralidade não é um defeito do nosso conhecimento, é uma propriedade da realidade. Aceitar que há infinitos campos de sentido não é reconhecer ignorância - é reconhecer estrutura. A realidade é assim. A inconclusão não é falha de método; é fidelidade ao objeto.


Uma filosofia para este jardim

O Massa Crítica existe porque esta conclusão tem consequências práticas.

Se nenhuma disciplina tem o campo privilegiado, então um projeto que pretenda compreender como funciona a sociedade não pode fechar-se numa linguagem única. Precisa de cruzar psicologia e sociologia, filosofia e ciência política, economia e literatura - não para obter uma síntese final, mas para tornar visíveis as sobreposições, as fricções, os pontos onde os campos se iluminam mutuamente e os pontos onde se contradizem.

A inconclusão que aqui se cultiva não é fraqueza intelectual. É, nos termos de Gabriel, a única postura honesta perante uma realidade que não cabe num único campo de sentido. Forçar a conclusão seria, literalmente, falsificar o objeto.

O mundo não existe. A sociedade também não. O que existe são campos - e o trabalho de os habitar, cruzar e interrogar está apenas a começar.


Markus Gabriel, Porque Não Existe o Mundo. Lisboa: Temas e Debates, 2014. [ed. original: Warum es die Welt nicht gibt. Ullstein, 2013]