supraposicionismo e campos de sentido

Aceti e Gabriel partem de problemas completamente diferentes - um da crítica digital, o outro da ontologia filosófica - e chegam a uma ressonância produtiva.

Gabriel argumenta que existir é aparecer num campo de sentido, e que há infinitos campos. O que não existe é o meta-campo que contém todos os outros - a totalidade absoluta. A realidade é constitutivamente plural: o mesmo objeto pode aparecer em múltiplos campos simultaneamente, com propriedades diferentes em cada um.

Aceti propõe o supraposicionismo como condição emergente: a possibilidade de ser duas coisas ao mesmo tempo, de existir em dois estados simultaneamente - material e imaterial, presente e arquivado, vivo e morto. A nuvem antecipa esta condição: o humano-nublado e o humano-ancorado são o mesmo ser em dois campos de sentido distintos.

A ligação: o que Aceti chama supraposicionismo, Gabriel descreveria como a existência simultânea em múltiplos campos de sentido. O humano-ancorado existe no campo do corpo, da matéria, da presença física. O humano-nublado existe no campo do dado, da representação, do arquivo digital. São ambos reais - mas as regras de individuação de cada campo são diferentes, e por isso o "mesmo" ser tem propriedades diferentes em cada um.

A divergência: Aceti vê nisto um potencial utópico (o supraposicionismo como saída do binarismo); Gabriel seria mais cauteloso - a existência em múltiplos campos não elimina a tensão entre eles, apenas a torna mais visível. O humano-nublado não é uma versão melhorada ou transcendida do humano-ancorado: é simplesmente outra aparição do mesmo ser, num campo com as suas próprias regras - e com os seus próprios poderes.

Cf. supraposicionismo · campos de sentido · o humano-nublado e o humano-ancorado

Fontes: Lanfranco Aceti, Wet Me (2017); Markus Gabriel, Porque Não Existe o Mundo (2013)