o fungo dissolve experiencialmente o que o micélio dissolve ontologicamente

O líquen e a rede micorrízica demonstram estruturalmente que a individualidade é uma fronteira provisória sobre um processo de relação. A psilocibina demonstra o mesmo - mas por via da experiência direta.

O cogumelo psicadélico produz, por meios farmacológicos, a compreensão experiencial do que a biologia fúngica demonstra estruturalmente.

Quando a Rede de Modo Padrão silencia sob a psilocibina, o self narrativo perde o monopólio sobre a experiência. O que resta não é o nada - é uma atenção mais ampla, menos auto-referenciada, em que a fronteira entre "dentro" e "fora" se torna permeável. Os utilizadores descrevem uma sensação de continuidade com o ambiente, com outros, com o processo do qual fazem parte.

Esta é exatamente a condição do líquen: um organismo que é a sua relação com o outro.

Há algo de vertiginoso nesta convergência. O fungo, que é estruturalmente relacional no seu modo de existir, produz nos mamíferos uma experiência de relacionalidade dissolvedora de limites. Não como efeito colateral - como característica que levou milhões de anos de coevolução a produzir.

A questão que Sheldrake não resolve - e que faz bem em não resolver: é isso acidente ou é isso sinal?

Cf. psilocibina e a rede de modo padrão · o líquen como organismo que é a relação · simpoiese

Fonte: Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024)