o arquivo como condição de existência
Aceti propõe, em termos foucaultianos, que na contemporaneidade hiper-mediada o arquivo digital deixou de ser uma escolha e se tornou uma condição de existência: estar vivo significa aparecer organizado, estruturado, arquivado e hiper-arquivado na nuvem.
Mas há uma ambiguidade central nesta formulação. Trata-se de uma condição de existência - algo que constitui o ser - ou de uma existência condicionada - algo que restringe e molda o ser de fora para dentro?
A diferença é decisiva. Uma condição de existência é ontológica: sem o arquivo, não há existência reconhecível. Uma existência condicionada é política: o arquivo define quem existe, como existe, e segundo que critérios.
Aceti sugere que a nuvem oferece ambas as coisas simultaneamente - e é nessa ambiguidade que reside o seu poder. O arquivo não é só o que guardamos de nós mesmos: é o que as corporações e os Estados constroem sobre nós, com os dados que disponibilizamos voluntária ou involuntariamente.
O irreprimível de Derrida - a força da memória transgeracional que resiste à supressão - torna-se, na nuvem, simultaneamente mais presente e mais vulnerável: presente porque nunca se perdeu tanto; vulnerável porque pode ser controlado, curado e redefinido por outros.
Fontes: Lanfranco Aceti, Wet Me (2017); Jacques Derrida, Archive Fever (1996)