o líquen e o indivíduo - a fronteira do self como ficção

O líquen é um organismo que é a relação entre parceiros. A filosofia ocidental construiu os seus conceitos de subjetividade sobre a premissa oposta: existe primeiro o indivíduo, e depois as relações que estabelece.

A biologia dos líquenes inverte esta ordem. O líquen não entra em simbiose - é a simbiose. Não há um núcleo pré-relacional que depois se associa a outros organismos: o que existe é um processo contínuo de negociação e co-constituição que produz, provisoriamente, algo reconhecível como unidade.

Se o modelo do líquen é mais preciso biologicamente do que o modelo do indivíduo delimitado, levanta-se uma questão para as ciências sociais: são os sujeitos humanos mais parecidos com líquenes do que com os átomos sociais que a teoria liberal pressupõe?

Esta questão foi explorada nas tradições do Novo Materialismo (Barad, Bennett, Braidotti) e do pós-humanismo (Haraway, Tsing), mas permanece perturbadora para qualquer framework que parta do indivíduo como unidade básica de análise - da microeconomia à psicologia clínica, da teoria política liberal ao direito.

O líquen não é uma metáfora. É um contra-exemplo biológico à premissa.

Cf. o líquen como organismo que é a relação · simpoiese

Fontes: Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024); Donna Haraway, Staying with the Trouble (2016)