MOC - Biologia e Sociedade
O que os fungos ensinam sobre a sociedade que a sociologia ainda não aprendeu?
Este mapa organiza-se em torno de uma tensão central: a biologia fúngica desafia sistematicamente os pressupostos com que as ciências sociais constroem os seus objetos. O indivíduo delimitado. A agência autónoma. A cooperação e a competição como opostos. A inteligência como propriedade de um tipo de substância.
Fonte central: Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024).
O indivíduo e os seus limites
O que é um organismo? Onde termina o self?
- o líquen como organismo que é a relação (átomo) - o organismo que é a simbiose; nenhum núcleo pré-relacional, apenas um processo contínuo de negociação
- simpoiese (átomo) - Haraway: "fazer-juntos" em vez de "auto-fazer"; os sistemas vivos são co-constituídos antes de serem individuais
- o líquen e o indivíduo - a fronteira do self como ficção (molécula) - biologia + filosofia da subjetividade; o líquen como contra-exemplo biológico à premissa liberal do indivíduo delimitado
Tensão central: se o organismo mais bem-sucedido e resiliente é fundamentalmente uma colaboração, o que justifica tratar o indivíduo como unidade básica de análise nas ciências sociais?
Cognição, inteligência e organização
A inteligência é uma propriedade de que tipo de coisa?
- cognição distribuída sem cérebro (átomo) - redes miceliais que resolvem labirintos sem processador central; inteligência como tipo de organização, não de substância
- cognição distribuída e campos de sentido (molécula) - Sheldrake + Gabriel: se a inteligência é propriedade de organização, diferentes campos de sentido têm diferentes arquiteturas cognitivas
Tensão central: se a inteligência pode existir sem centro e sem sujeito, o modelo do indivíduo racional que decide é um caso particular, não uma lei universal.
Cooperação, competição e redes
A natureza é cooperativa ou competitiva?
- a rede micorrízica - cooperação e competição no mesmo sistema (átomo) - cooperação e competição coexistem na mesma rede; a dicotomia é falsa
- o micélio como rizoma biológico (molécula) - Sheldrake + Deleuze/Guattari: o rizoma como arquitetura de organização instanciada biologicamente
- micélio, zettelkasten e jardim digital - redes sem centro (molécula) - três sistemas sem hierarquia validados independentemente; a rede sem centro como solução convergente
Tensão central: as ciências sociais oscilam entre o modelo do conflito e o modelo do consenso. A rede micorrízica mostra que esta dicotomia é uma simplificação empírica, não apenas filosófica.
Agência, comportamento e autoria
Quem age quando agimos?
- o cordyceps e a agência parasitada (molécula) - biologia + filosofia da agência; comportamento indistinguível do voluntário produzido por outro organismo
- o microbioma como coautoria do comportamento (molécula) - biologia + filosofia da ação; o eixo intestino-cérebro e os limites da agência individual
Tensão central: o modelo cartesiano do sujeito que governa um corpo a partir do interior é uma fantasia. Somos sempre autores colaborativos - o que não elimina a responsabilidade, mas altera profundamente o seu fundamento.
Consciência, self e dissolução
O self é uma unidade ou um processo?
- psilocibina e a rede de modo padrão (molécula) - farmacologia + neurociência + filosofia do self; a Rede de Modo Padrão como substrato do self narrativo
- o fungo dissolve experiencialmente o que o micélio dissolve ontologicamente (molécula) - dois mecanismos fúngicos que convergem na mesma conclusão: o self é um processo provisório, não uma substância fixa
Tensão central: a psilocibina produz, por via farmacológica, a compreensão experiencial do que a biologia dos líquenes demonstra estruturalmente. O cogumelo não cria esta compreensão - torna-a acessível.
Decomposição e transformação
O que é o fim? O que é o começo?
- a decomposição como transformação (átomo) - a putrefação como condição de possibilidade para nova vida; a política da decomposição contra a cultura da acumulação
- decomposição e decrescimento - a lógica do esvaziamento fértil (molécula) - Sheldrake + Latouche: dissolução biológica e decrescimento económico partilham a mesma lógica; o esvaziamento como condição de renovação em dois domínios distintos
Tensão central: a cultura capitalista privilegia o crescimento e a solidez; a biologia fúngica reabilita o desfazimento como necessidade vital e condição de renovação. O decrescimento de Latouche aplica esta lógica à economia.
Implicações para as ciências sociais e o conhecimento
- o fungo como modelo epistemológico para as ciências sociais (composto) - o que a micologia desafia nas premissas do indivíduo, da agência e da cooperação nas ciências humanas
- simbiose como método (composto) - a inconclusão biológica de Sheldrake como postura epistemológica; a fidelidade ao objeto como recusa de resolução forçada
Caminhos de leitura
Começar pelo indivíduo:
o líquen como organismo que é a relação → o líquen e o indivíduo - a fronteira do self como ficção → o fungo como modelo epistemológico para as ciências sociais
Começar pela agência:
o cordyceps e a agência parasitada → o microbioma como coautoria do comportamento → simbiose como método
Começar pela cognição:
cognição distribuída sem cérebro → cognição distribuída e campos de sentido → micélio, zettelkasten e jardim digital - redes sem centro
Percurso completo:
o líquen como organismo que é a relação → simpoiese → a rede micorrízica - cooperação e competição no mesmo sistema → o micélio como rizoma biológico → cognição distribuída sem cérebro → o cordyceps e a agência parasitada → psilocibina e a rede de modo padrão → o fungo dissolve experiencialmente o que o micélio dissolve ontologicamente → simbiose como método
Perguntas em aberto
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O indivíduo como ficção útil - se a individualidade é uma fronteira provisória, porque é que a mantemos como unidade de análise? Por conveniência metodológica? Por ideologia? Por inevitabilidade prática?
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Cognição coletiva - se a inteligência pode ser distribuída biologicamente, pode sê-lo também socialmente? As instituições, os mercados, as culturas "pensam"? Em que sentido?
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A política da decomposição - o que seria uma política ou uma economia que levasse a sério a necessidade do desfazimento? Quais os seus modelos históricos e contemporâneos?
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Simbiose e exploração - mutualismo e parasitismo coexistem na mesma rede. A distinção cooperação/exploração é analiticamente útil ou empiricamente insustentável?
Notas por criar
- Merlin Sheldrake - entrada própria sobre o autor e o método
- Donna Haraway - simpoiese, ficção científica e pensamento multiespécies
- Anna Tsing - assemblagens polifónicas; etnografia multiespécies
- Lynn Margulis - a simbiose como motor da evolução