o cubo de açúcar como pharmakon
Darren Tofts, citado por Aceti, propõe a imagem do cubo de açúcar como metáfora da nuvem e da condição digital:
"São de certa forma como nuvens. Etéreos, particulados e dissolúveis, estão sempre já a caminho de se tornarem nada. O cubo de açúcar é uma espécie de pharmakon, um inteiro de opostos que, na sua natureza binária, nunca pode ser reconciliado."
O pharmakon - conceito que Platão usa no Fedro e que Derrida desenvolve em A Farmácia de Platão - é simultaneamente remédio e veneno, medicina e droga. Não tem essência fixada: é o que é segundo o contexto e o uso.
O cubo de açúcar que se dissolve no chá é transformação, não destruição: passa de sólido a líquido, de granulado a sabor, de forma a presença difusa. A nuvem opera da mesma forma: transforma a identidade sólida (o corpo, o arquivo físico, a presença) em algo disperso, disponível em todo o lado e em lugar nenhum.
A conexão com o cupio dissolvi: a dissolução do cubo de açúcar é desejada - é para isso que serve. Da mesma forma, o utilizador deseja a dissolução na nuvem: a libertação do peso do arquivo físico, a promessa de imortalidade mediada. Mas o pharmakon não promete só cura: promete também dependência, intoxicação, perda de controlo sobre a forma.
A dissolução é ao mesmo tempo o remédio (transcendência, presença omnipresente) e o veneno (perda de autonomia, entrega dos dados, escravização do humano-ancorado ao humano-nublado).
Cf. cupio dissolvi · o humano-nublado e o humano-ancorado
Fontes: Lanfranco Aceti, Wet Me (2017); Darren Tofts, ...But the Clouds (2014); Jacques Derrida, A Farmácia de Platão (1972)