escrever para pensar

A inversão proposta por Ahrens - escrever para pensar, e não depois de pensar - parece simples. As suas implicações não são.


A versão corrente

O modelo habitual de produção intelectual separa duas fases:

  1. Pensar - investigar, ler, desenvolver ideias na cabeça
  2. Escrever - registar o resultado do pensamento

A escrita é o produto; o pensamento é o processo. Escrever é apenas comunicar o que já se concluiu.


A inversão de Ahrens

Ahrens propõe que esta separação é falsa, ou, pelo menos, que é contraproducente adoptá-la como modelo de trabalho.

O pensamento claro não precede a escrita: emerge através dela. Quando tentamos formular uma ideia por escrito, descobrimos o que não sabíamos que não sabíamos. A escrita revela os buracos no argumento, as contradições não resolvidas, as ligações em falta.

Uma ideia que parece clara na cabeça frequentemente colapsa ao ser escrita. Isso não é falha. É o sistema a funcionar.


As implicações para a produção colaborativa

Se escrever é pensar, então uma nota inacabada não é uma nota fraca - é um pensamento em curso. Publicá-la não é exposição de incompletude; é disponibilizar um processo para que outros possam continuar.

Isto muda o que significa contribuir para um jardim coletivo. A contribuição não é o artigo acabado - pode ser a pergunta, o fragmento, o rascunho que alguém mais tarde transforma em outra coisa.


A tensão com a cultura académica

A academia valoriza o produto acabado: o artigo publicado, a tese aprovada, o argumento fechado. O processo é privado; o público só vê o resultado.

O modelo de escrever para pensar inverte esta lógica: o processo é público, ou pelo menos partilhável; o produto é sempre provisório.

Esta tensão não está resolvida e é provavelmente irresolúvel. Mas vale a pena nomeá-la: um jardim digital que valoriza o processo sabe que existe numa cultura que valoriza o produto.

Falta desenvolver: a relação com a revisão por pares como modelo de validação; a questão da autoria num sistema onde o pensamento emerge das ligações entre notas de vários autores.

Cf. escrever é o meio onde o pensamento acontece · externalização do pensamento · o zettelkasten como epistemologia