o líquen como organismo que é a relação
Um líquen não é um fungo. Não é uma alga. Não é uma cianobactéria. É a relação entre eles. O organismo é a simbiose.
Esta descoberta, feita no século XIX pelo botânico Heinrich Anton de Bary, foi recebida como escândalo. A resistência não era científica - era ideológica. A ideia de que uma forma de vida bem-sucedida e resiliente pudesse ser, no seu nível mais fundamental, uma colaboração entre tipos radicalmente diferentes de organismos desafiava a moldura darwiniana de unidades individuais em competição.
A investigação contemporânea foi ainda mais longe: os líquenes podem envolver não dois mas três ou mais parceiros - incluindo bactérias que vivem no córtex fúngico. O "indivíduo" do líquen dissolve-se, sob inspeção, numa ecologia.
"Se um líquen não é um ou dois organismos mas uma negociação contínua entre parceiros - então talvez o que chamamos 'indivíduos' sejam sempre, já, processos de entrelaçamento em vez de unidades que entram posteriormente em relações." - Merlin Sheldrake
O líquen não prova que não há indivíduos. Prova que a individualidade é uma fronteira provisória sobre um processo de relação, não uma substância independente.
Fonte: Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024)