cognição distribuída e campos de sentido

Markus Gabriel argumenta que existir é aparecer num campo de sentido - que não há existência fora de algum domínio de inteligibilidade. Merlin Sheldrake demonstra que a inteligência pode ser distribuída por uma rede sem qualquer processador central.

A ligação não é imediata, mas é produtiva.

Se a inteligência é uma propriedade de um tipo de organização e não de um tipo de substância, então diferentes campos de sentido podem ter diferentes arquiteturas cognitivas - igualmente reais, igualmente irredutíveis. A cognição fúngica não é cognição humana degradada; é cognição num campo de sentido diferente, com as suas próprias regras de processamento e resposta.

O que a cognição distribuída fúngica torna visível é que o nosso modelo de inteligência é paroquial. Fomos construindo definições de cognição, racionalidade e agência a partir de um único campo - o humano - e generalizando como se fosse o meta-campo. Gabriel diria: não há meta-campo. O micélio diria: tínhamos razão antes de sabermos porquê.

Isto tem consequências para as ciências sociais: se a cognição pode ser distribuída biologicamente, pode também ser distribuída socialmente - em grupos, culturas, instituições - sem precisar de reduzir-se à soma das cognições individuais.

Cf. cognição distribuída sem cérebro · campos de sentido

Fontes: Merlin Sheldrake, A Vida Secreta dos Fungos (2024); Markus Gabriel, Porque Não Existe o Mundo (2013)