o lixo é matéria fora do lugar

A definição de Mary Douglas em Pureza e Perigo (1966) pode causar deceção: o lixo não tem uma natureza intrínseca. É matéria que está no lugar errado segundo um determinado sistema de classificação.

A sujidade não é uma propriedade dos objetos. É uma relação entre os objetos e a ordem que os classifica.

O sapato é um sapato. Numa mesa de jantar, é sujidade. O que mudou não foi o sapato.

A implicação: o que uma cultura considera lixo - algo descartável, inútil, contaminante - revela mais sobre os seus sistemas de ordem do que sobre os objetos descartados. E o que não consegue classificar, expulsa.

Isto aplica-se ao lixo material, mas também ao lixo social (as populações que "não encaixam"), ao lixo simbólico (as ideias que perturbam o sistema) e ao lixo digital (os dados que as plataformas removem).

Cf. A crise ecológica contemporânea · a decomposição como transformação

Fonte: Mary Douglas, Pureza e Perigo (1966)